sexta-feira, 30 de outubro de 2009

DA IGNORÂNCIA À IGNORÂNCIA

Nostalgia não é uma palavra aplicável à minha realidade hoje, mas nessas duas horas pré-shabáticas em que eu me encontro, a "alma adicional" (que adquirimos nesse dia, de acordo com os antigos rabis), parece querer lembrar, recordar, o meu primeiro contato com a Tradição Cabalista. Me lembro da primeira sala no Largo do Machado e das letras yod e resh pregadas num cavalete simples com um bloco todo riscado de possíveis aulas dadas pelo mestre Mario Meir ao longo daquela semana do mês de Elul. As pessoas chegaram (provavelmente umas dez no máximo) e a aula começou. Nunca tinha ouvido tanto a palavra "arquétipo" na minha vida. Fiquei sabendo de um tal de Itzchak que quase fora sacrificado pelo seu pai Avraham, e que aqueles personagens, assim como outros, eram arquétipos de naturezas, forças, potências internas. Isso mesmo, aquela narrativa dizia à respeito da gente, do que ocorre no interior da nossa alma.
A aula acabou, e eu simplesmente disse: "gostei da aula", mal sabendo o quanto isso iria me influenciar ao longo desses dez anos.

No meu segundo contato significativo, sentava-me agora de lado para a mesa do mestre, de frente para uma parede que continha um armário, que depois vim a saber que chamava-se "Aron HaCodesh", a Arca Sagrada. Uma vela trançada foi acesa e as cortinas estavam semicerradas. Me deram um vinho escuro, num tom quase marrom. Naquela hora, achei aquilo tudo muito esquisito. O que era aquilo que acontecia? Enfim, me explicaram; mas o rito não se entende só cognitivamente, certo? Tive apenas que observar, contemplar, o que o oficiante fazia. Era o rito da Havdalá, que marca o término do Shabat e o início da semana, que nada mais é do que um eco da Criação (Bereshit), de acordo com os cabalistas.

Depois disso, os anos se passaram. Oscilei entre a "ignorância" e a "erudição estéril", e posso dizer com segurança a qualquer um, que a primeira é o elemento essencial para nunca se perder o fascínio pela vida. Jamais perca o desejo de receber!


Pablo Alcantara